Pinga ni mim – nosso pequeno “contrabando”

Não sei porque cargas dágua achei que cada passageiro podia passar com até 2L de bebida alcóolica através das fronteiras canadenses. Mas foi o que eu considerei quando soquei uma velha garrafa de whisky 18 anos que já tinha desde os tempos de São José, fechadinha, juntamente com mais 2 garrafas de cachaça mineira da boa no meio das nossas malas. Se são 2L por pessoa, com 3L de bebida ainda estamos com certa folga.
A tensão já começou poucos minutos depois da decolagem, quando recebemos o papelzinho do Canadian Customs, no mesmo estilo do que recebemos da Polícia Federal para a entrada no Brasil. Tudo que temos a fazer é nos identificarmos e declararmos as mercadorias adquiridas no exterior, para fins de taxação. Juro que li tudinho e ainda assim estava em dúvida se eu deveria declarar alguma coisa. No caso do Brasil, só é necessário declarar o que tenha passado do limite não-taxável, e resolvi considerar assim mesmo. Mas o problema era a cachaça: não tinha nada de 2L lá não, o limite de 2 garrafas no caso de vinho e de 1.14L pro caso de destilados; 24 latinhas se fosse cerveja e outras coisas mais. Falassério, pra que simplificar, né? Viajei nos limites, mas uma coisa era certa: minhas canas estavam a mais do que o permitido. Agora ficava a dúvida do que fazer: declarar a quantidade real acarretaria somente em pagamento de uma taxa qualquer ou acabaria fazendo a gente atrasar e consequentemente perder a conexão com o trem pra Montreal? Ou declarar uma quantidade falsa e correr o risco de se enrolar ainda mais e perder de vez o trem e talvez algo mais? Não é do meu feitio, mas a situação apertou e o instinto falou mais alto, deixando aflorar o jeitinho brasileiro que fez surgir a terceira opção: omitir a informação até quando possível, o famoso “migué”. Não que fosse na cara dura, afinal de contas, se eu considerasse as regras brasileiras as bebidas em conjunto não ultrapassariam o limite não taxável, e as regras canadense estavam dúbias. Fora que no cartão não tinha onde declarar a quantidade de álcool, só tinha um campo pra declarar o valor das mercadorias. O cartão era um só por família, a Nívea estava tranquila compenetrada nos seus pensamentos (não cai, avião… não cai, avião… não cai, avião…) e resolvi não levar o problema até seu conhecimento. Bom, deixa pra lá, ficou em branco…
Umas oito horas depois é a hora de desembarcar e enfrentar o probleminha que até então estava varrido pra debaixo do tapete. Caso ninguém falasse nada, iríamos deslizando sem problemas até a saída, pro busão que nos levaria até a estação de trem. Mas na triagem da imigração já rolou o desgosto: a mulherzinha depois de checar nossos vistos quis dar um bizu no cartão da declaração e já embassou: “Senhor, o campo aqui está em branco. Vc deve declarar o valor das mercadorias que está trazendo”. Respondi que não estava trazendo nada além de meus pertences, e ela insistiu, perguntando se eu não tinha comprado nada nem recebido presente nenhum. Após hesitar um pouco, respondi dizendo que não, considerando que as coisas que eu estava trazendo poderiam ser todas consideradas itens de uso pessoal. Daí ela mandou uma na mosca: nem tabaco ou álcool?
Chiiii… olhei pra ela e disse “sim, estou trazendo sim”, e ela já com cara de preguiça mandou um “então, (meu filho) vc tem que declarar…” Mas eu ainda tinha uma carta na manga e disparei: “Mas é de pouco valor, não atinge a cota permitida para taxação”. Fazia parte do migué. Mas ela rebateu: “Não importa, vc tem que declarar qualquer quantidade de álcool” e de posse do cartão engatilhou uma caneta e continuou: “quantos litros?”. Mais uma vez e instinto tomou a frente e sem titubear já mandei: “2L”. e com a canetona vermelha ela escreveu no meio do cartão: 2L
Nesse momento eu já bolava um plano B na cabeça, também baseado nas frágeis porém eficientes estruturas do migué: nenhuma das garrafas continha de fato 1L. Duas delas continham 700ml. Uma 900 e uns quebrados. No total não chegava a dois litros e meio, e ainda dava valor quebrado. Um prato cheio para mandar o migué do “nossa, me confundi nas contas…”. De madrugada, depois de 9h de vôo… sei lá, se pá até cola!
Pois passamos do balcãozinho da moça com o cartão rabiscado com a informação “imprecisa”. Só precisávamos por as mãos nas malas e chegar até a saida mais próxima. Como ainda estávamos de posse do cartão, significava que teríamos que entrega-lo para mais alguém, que seria a fronteira final antes da liberdade.
Pegamos as malas no carrossel e começamos caçar a saída. Momento em que a Nívea, até então alheia ao problema etílico, mandou uma inesperada e bombástica pergunta: “Se eles quiserem ver as bebidas, mesmo que deixem passar, eles não vão embassar com o monte de comida que estamos trazendo?”. Eu não tinha pensado nisso, enquanto estava planejando o migué dos cálculos volumétricos. Ela tinha toda razão. Seguindo a lógica do preenchimento do cartão explicada pela mocinha da triagem, todos os comes – e nem todos politicamente corretos – deveriam ser declarados como bens adquiridos no exterior. Putz, a m$@%da estava armada.
Pra tranquilizar a Nívea, minha resposta foi: “Pega nada, são todos produtos industrializados…” certo, certo… sacos de chás compostos por sementes e ervas , doces de frutas frescos embalados somente em plastico, derivados de leite, buchas orgânicas do quintal da minha mãe… nem tudo se encaixava exatamente no conceito de “produto industrializado”.
Como não foi de propósito, enquanto empurrava o carrinho pensei: “agora já era, se embassarem, não há nada mais a ser feito…”. Não sei dizer o quanto a Nívea estava preocupada com isso, mas pra mim foram momentos de tensão total. O rush de adrenalina veio na hora que embicamos o carrinho num corredor onde no final se viam duas guardas com cara de mau e as mãozinhas cruzadas nas costas e os pés firmes no chão. Sim, seriam elas as designadas a receber o cartão, nesse momento a porta detrás das guardas era definitivamente a fronteira final pra liberdade. Fomos nos aproximando, empurrando o carrinho com as malas recheadas do que agora oficialmente poderíamos classificar como contrabando. Cada passo era um terror. As fitas para controlar o fluxo de pessoas iam se afunilando em direção às duas. A porta da liberdade era estreita. A poucos passos de uma delas paramos o carrinho. Cada uma das guardas tinha um montinho de cartões em um das mãos, não deixando dúvidas do que elas estavam fazendo por lá. Estendi a mão com o cartão. A guarda, inexorável, me fitando com olhar ameaçador alcançou o cartão e deu uma boa olhada nele. Meneou a cabeça e mandou: “Obrigada, senhor”.
Liberdade. Caiu do cavalo quem achou que essa história ia acabar mal!
Kkkkkkkkkkkkkkkk! Suspense… tensão total! Tá parecendo Alfred Hitchcock! Hahahaha
Bjão proceis!
Tô com a Andréa… puro suspense.
Beijos
Este ficou para trás…..não dá para levar.
http://www.youtube.com/watch?v=2q3aUzRDkaQ
Quando vi a foto,já matei a charada…passaram!
cadê o wisky 18 anos?
Esse não saiu na foto porque não entrou na turma das moambas brasileiras. Só cachaça, leite ninho, produtos natura, bucha, leite em pós, goiabada, paçoca, bananinha, e por aí vai….
Mas é como foi na hora, mesmo não parecendo muito a emoção foi total!